Homeopatia Veterinária
A Homeopatia Veterinária tem, como princípios básicos, a cura pelo semelhante e conceito básico de curar o animal e não a doença, os mesmos objectivos que estão consignados na Homeopatia.
Cada doente é encarado individualmente e não como mais um a desenvolver aquela doença, dado que cada animal responde às alterações externas de forma particular, o que deverá ser a informação base para a instituição de uma terapia.
Nesta área, o trabalho é complicado pela dificuldade em avaliar a componente de sintomas mentais nos animais, mas os resultados alcançados têm sido bastante bons. Exige, como em qualquer outro tipo de terapia, uma cooperação considerável por parte dos proprietários. É cada vez maior o número de pessoas que procuram os serviços de um Médico Veterinário com conhecimentos em Homeopatia, com o objectivo de tratar o seu animal de estimação.
Citando São Tomás de Aquino “Deve dizer-se que as paixões interiores dos animais podem conhecer-se observando os seus comportamentos exteriores” in “Suma Teológica”, Séc. XIII
História da Homeopatia Veterinária
A profissão de Médico Veterinário nasce na segunda metade do século XVIII em França (Lyon e Alford), evento que é acompanhado na vizinha Alemanha pela Escola de Hannover.
Tal acontece numa altura em que a Europa é assolada por graves epidemias, nomeadamente a Peste Bovina, a Peste Bobónica e a Febre Aftosa, no gado bovino, e a Peste Equina, favorecida pelas numerosas guerras em curso.
Sammuel Hahnemann (1755-1843), contemporâneo do nascimento da Medicina Veterinária, acompanha o seu desenvolvimento com interesse, declarando em 1796 «(…) se as leis da Medicina que proclamo são certas e naturais, elas serão válidas para todos os seres vivos.»
Acaba por ser ele próprio o primeiro a pôr em prática as suas palavras com o seu cavalo, que padecia de uma uveíte recidivante, tratando-o, com sucesso, com Natrum Muriaticum.
Mais tarde apresenta, numa conferência em Leipzig, o seu manuscrito intitulado “O tratamento homeopático em animais domésticos”, em que declara «Facilmente aceitei que a Medicina Veterinária em geral se pratica de uma forma muito semelhante à Medicina Humana, e o mesmo sentido pode ser aplicado ao seu ideal:
Primeiro: a observação do quadro da doença que apresenta o animal afectado;
Segundo: a necessidade de conhecer exactamente o efeito que produzem as substâncias puras administradas aos animais sãos.
Isto permite ao médico encontrar para o animal doente o semelhante para a doença que apresenta. Este é o método mais seguro, mais rápido e, desde o ponto de vista homeopático, o mais útil.
Quando os sintomas produzidos pelo medicamento escolhido no animal são, correspondem aos sintomas do animal doente, pode ter-se uma certeza quase matemática que o animal se curará, sendo esta cura rápida e duradoura.(…)
Em poucas palavras direi que os animais podem ser curados pelo método homeopático de forma tão segura como se pode curar o Homem»
Hahnemann foi, juntamente com Frederico, o Grande, e Goethe, um dos primeiros defensores dos animais.
Wilhelm Lux (1773-1849), Médico Veterinário, frequentador da Sociedade Homeopata em Leipzig (juntamente com Hahnemann e outros), em 1831 é consultado por um criador de cavalos cujos animais estavam a sucumbir perante uma epidemia de Mormo. Prepara então um medicamento feito da própria secreção nasal de um dos animais afectados, ministrando a todo o grupo doente na potência de 30 CH e, assim, obtendo sucesso na cura da doença. Este processo, a cura pelo semelhante ou Isopatia, acaba por desencadear uma polémica entre Lux e o próprio Hahnemann.
Lux torna-se então o pioneiro na utilização deste procedimento terapêutico e é o autor do primeiro manual de Veterinária «Homeopatic Veterinarium Physician», em 1836.
Precisamente nesse ano de1836 dá-se um acontecimento de grande importância, numa altura em que vários Veterinários de vários países já conhecem e utilizam a Homeopatia: a publicação da obra «As Doenças de Cavalos», de F. A. Gunter, na qual afirma ter experimentado 188 medicamentos homeopáticos no equino. Na mesma época, Lotzbeck publica, também na Alemanha, o «Manual da Medicina Veterinária Homeopática» e surgem as primeiras notícias de um equino curado, com êxito, de uma nefrite grave com uma dose de Belladona 6CH nos Estados Unidos da América, por W. H. Smith.
O restante século XIX caracteriza-se, no campo da Medicina Veterinária, pela esparsa publicação de obras sobre Homeopatia, mas aparentemente o fio condutor não foi perdido, uma vez que, a partir de 1928, começam a aparecer trabalhos interessantes, como o artigo “Homeopatia para Animais”, do Médico R. H. Schneider e a tradução para francês da sexta edição do Organon, pelo médico russo Pierre Schmidt.
Bruckner, em 1929, seguindo as ideias de Hahnemann, escreve “Sobre o sistema homeopático para a cura dos Equinos”, onde chama a atenção para o facto de muitos Veterinários curarem homeopaticamente, sem disso terem consciência.
Nos anos 30 aparece, na Revista Homeopática Francesa uma série de artigos de Pigot sobre o “Tratamento Homeopático das Afecções dos Carnívoros Domésticos”.
Em 1939, o Médico Veterinário Peyreque de Lourdes trata diversas doenças de bovinos, como a Pasteurelose, Septicemias, a Febre Vitular e a Piroplasmose, para além de gastrenterites infecciosas do gato, recorrendo a medicamentos homeopáticos preparados a partir do veneno de serpentes, como a Lachesis, Naja, Vipera e Crotalus.
A partir do final da década de 40 reconhece-se outra dinâmica na Homeopatia Veterinária, multiplicando-se os trabalhos de investigação e os artigos publicados. Em 1948, Vittoz demonstra a acção da Thuja sobre as verrugas de Bovinos, enquanto o Professor Bordet prova o seu êxito sobre os papilomas buço-faríngeos do Canídeo. Estes trabalhos servem de base à tese de Tegret, ( Alfort 1953) que estuda o efeito da Thuja nas verrugas dos potros.
Na reunião de Janeiro de 1950, o Centro Homeopático de França, apresenta o trabalho, “Investigações sobre o Tratamento da Raiva e Outras Doenças mediante a Homeopatia”, do Dr. Plantureux do Instituto Pasteur de Alger, que afirma ter conseguido a cura de 35 casos de Raiva declarada utilizando um nosódio do vírus da Raiva e Lachesis 7CH, além de Belladonna e Guaco. Também relata nos seus estudos a Influenza no suíno, para a qual apresenta como medicamento epidémico o Ferrum Phosphoricum, utilizado também para a difteria aviária. Em 1952 em França, os veterinários Aubry e Bardoulate publicam “Medicina Veterinária Homeopática” que, no dizer dos próprios autores, está destinada a substituir o antigo livro de Güntherilacuzon. Este tratado inclui o tratamento de grandes animais, de carnívoros domésticos e de aves de produção.
Em 1953 o Dr. Duverdyn, Veterinário de Bruxelas, descreve:
“Alguns casos tratados inutilmente com Alopatia e melhorados pela Homeopatia” sublinhando quadros de metrite e piómetra.
O Dr. Pierre Sheyre publica em 1954 um artigo intitulado “Medicamento único e altas diluições”, no qual declara que “os nossos fracassos não devem ser imputados à Homeopatia, mas a nós próprios”, sendo dos poucos de origem francesa, que procura algo mais que o organotropismo.
Em 1957 faz-se uma tese de doutoramento em Lyon sobre os medicamentos a utilizar na hepatite crónica do cão. Dedicam-se teses à Arnica, aumentando a frequência e a informação com que a Homeopatia é tratada, o que resulta numa actualidade em que a Medicina Veterinária homeopática se pratica em todo o mundo com êxito.
Ultrapassando fronteiras, a Homeopatia é praticada no Homem, no animal e nas plantas e vista de diversos prismas, explorada em várias das suas vertentes. Ao nível da Medicina Veterinária, ela surge como técnica terapêutica, não só a nível complementar, mas como uma primeira opção terapêutica, nomeadamente ao nível do novo conceito e sistema de produção que cresce hoje, a Pecuária e Agricultura Biológicas.
De acordo com os princípios da Agricultura e Pecuária Biológicas, a actividade animal deve estar, tanto quanto possível, integrada no ecossistema, visando a optimização da reciclagem dos nutrientes (dejectos animais, biomassa vegetal), uma menor dependência de inputs externos (como rações e fertilizantes) e ainda a potenciação de todos os benefícios directos e indirectos advindos dessa integração.
In “ Los animales y la homeopatia, teoria y experiencia”, F. Briones, Dilema, 2006
“Homeopatia Veterinária, Introdução à Doutrina Hanmanniana”, S. Pinto Cardoso, Relatório Final de Curso, UTAD, 2006